Poucas coisas consolam como palavras quentes no escuro quando você sente falta e não sabe por que. É a estranheza de ouvir tanto riso de nervosismo, de vinho, de esperança - ouvi-lo e sentir que não tem por que. Outsider; presente de corpo, estando ali sem ter por quem.
por quem chegou um dia na minha porta cantando
We'll make a film about a man that's sad and lonely
And all I gotta do is act naturally.
por quem perguntou sobre o sol que carrego junto ao peito.
por quem me viu.
por quem eu teria um porquê.
Sinto falta e nem sei por que.
Something in the way she moves
Attracts me like no other lover
Something in the way she woos me
I don't want to leave her now
You know I believe and how
Somewhere in her smile she knows
That I don't need no other lover
Something in her style that shows me
Don't want to leave her now
You know I believe and how
You're asking me will my love grow
I don't know, I don't know
You stick around now it may show
I don't know, I don't know
Something in the way she knows
And all I have to do is think of her
Something in the things she shows me
I don't want to leave her now
You know I believe and how *
(*) Something - The Beatles
sexta-feira, 30 de julho de 2010
domingo, 18 de julho de 2010
Deise
ela é comigo quando não há mais ninguém
ela é com ela mesma quando o som flui pelo ar
é cada acorde
é Led e o calor do amor novo
ela é a leveza de quem carregou todo o peso
ela é a brisa que sopra na sacada enluarada
é cada estrela
é Joyce sendo descoberto
é flor
é força
é doce em noite de luz e barro
é o que faz lembrar que ainda vale a pena
terça-feira, 13 de julho de 2010
sobre as coisas que não existem
eu já as tenho - são as coisas que sonhei
feitas de algodão e vento gelado.

as pessoas mais bonitas não estão na foto
nem no corredor.
feitas de algodão e vento gelado.

as pessoas mais bonitas não estão na foto
nem no corredor.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
domingo, 27 de junho de 2010
429. *
Em todos os lugares da vida, em todas as situações e convivências, eu fui sempre, para todos, um intruso. Pelo menos, fui sempre um estranho. No meio de parentes, como no de conhecidos, fui sempre sentido como alguém de fora. Não digo que o fui, uma só vez sequer, de caso pensado. Mas fui-o sempre por uma atitude espontânea da média dos temperamentos alheios.
Fui sempre, em toda a parte e por todos, tratado com simpatia. A pouquíssimos, creio, terá tão pouca gente erguido a voz, ou franzido a testa, ou falado alto ou de terça. Mas a simpatia, com que sempre me trataram, foi sempre isenta de afeição. Para os mais naturalmente íntimos fui sempre um hóspede, que, por hóspede, é bem tratado, mas sempre com a atenção devida ao estranho, e a falta de afeição merecida pelo intruso.
Não duvido que tudo isto, da atitude dos outros, derive principalmente de qualquer obscura causa intrínseca ao meu próprio temperamento. Sou porventura de uma frieza comunicativa, que involuntariamente obriga os outros a reflectirem o meu modo de pouco sentir.
Travo, por índole, rapidamente conhecimentos. Tardam-me pouco as simpatias dos outros. Mas as afeições nunca chegam. Dedicações nunca as conheci. Amarem, foi coisa que sempre me pareceu impossível, como um estranho tratar-me por tu.
Não sei se sofra com isto, se o aceite como um destino indiferente, em que não há nem que sofrer nem que aceitar.
Desejei sempre agradar. Doeu-me sempre que me fossem indiferentes. Ó rfão da Fortuna, tenho, como todos os órfãos, a necessidade de ser o objecto da afeição de alguém. Passei sempre fome da realização dessa necessidade. Tanto me adaptei a essa fome inevitável que, por vezes, nem sei se sinto a necessidade de comer.
Com isto ou sem isto a vida dói-me.
Os outros têm quem se lhes dedique. Eu nunca tive quem sequer pensasse em se me dedicar. Servem os outros: a mim tratam-me bem.
Reconheço em mim a capacidade de provocar respeito, mas não afeição. Infelizmente não tenho feito nada com que justifique a si próprio esse respeito começado quem o sinta; de modo que nunca chegam a respeitar-me deveras.
Julgo às vezes que gozo sofrer. Mas na verdade eu preferiria outra coisa. Não tenho qualidades de Chefe, nem de sequaz. Nem sequer as tenho de satisfeito, que são as que valem quando essas outras faltem.
Outros, menos inteligentes que eu, são mais fortes.
Talham melhor a sua vida entre gente; administram mais habilmente a sua inteligência. Tenho todas as qualidades para influir, menos a arte de o fazer, ou a vontade, mesmo, de o desejar.
Se um dia amasse, não seria amado.
Basta eu querer uma coisa para ela morrer. O meu destino, porém, não tem a força de ser mortal para qualquer coisa. Tem a fraqueza de ser mortal nas coisas para mim.
(*) Livro do Desassossego - Fernando Pessoa
Fui sempre, em toda a parte e por todos, tratado com simpatia. A pouquíssimos, creio, terá tão pouca gente erguido a voz, ou franzido a testa, ou falado alto ou de terça. Mas a simpatia, com que sempre me trataram, foi sempre isenta de afeição. Para os mais naturalmente íntimos fui sempre um hóspede, que, por hóspede, é bem tratado, mas sempre com a atenção devida ao estranho, e a falta de afeição merecida pelo intruso.
Não duvido que tudo isto, da atitude dos outros, derive principalmente de qualquer obscura causa intrínseca ao meu próprio temperamento. Sou porventura de uma frieza comunicativa, que involuntariamente obriga os outros a reflectirem o meu modo de pouco sentir.
Travo, por índole, rapidamente conhecimentos. Tardam-me pouco as simpatias dos outros. Mas as afeições nunca chegam. Dedicações nunca as conheci. Amarem, foi coisa que sempre me pareceu impossível, como um estranho tratar-me por tu.
Não sei se sofra com isto, se o aceite como um destino indiferente, em que não há nem que sofrer nem que aceitar.
Desejei sempre agradar. Doeu-me sempre que me fossem indiferentes. Ó rfão da Fortuna, tenho, como todos os órfãos, a necessidade de ser o objecto da afeição de alguém. Passei sempre fome da realização dessa necessidade. Tanto me adaptei a essa fome inevitável que, por vezes, nem sei se sinto a necessidade de comer.
Com isto ou sem isto a vida dói-me.
Os outros têm quem se lhes dedique. Eu nunca tive quem sequer pensasse em se me dedicar. Servem os outros: a mim tratam-me bem.
Reconheço em mim a capacidade de provocar respeito, mas não afeição. Infelizmente não tenho feito nada com que justifique a si próprio esse respeito começado quem o sinta; de modo que nunca chegam a respeitar-me deveras.
Julgo às vezes que gozo sofrer. Mas na verdade eu preferiria outra coisa. Não tenho qualidades de Chefe, nem de sequaz. Nem sequer as tenho de satisfeito, que são as que valem quando essas outras faltem.
Outros, menos inteligentes que eu, são mais fortes.
Talham melhor a sua vida entre gente; administram mais habilmente a sua inteligência. Tenho todas as qualidades para influir, menos a arte de o fazer, ou a vontade, mesmo, de o desejar.
Se um dia amasse, não seria amado.
Basta eu querer uma coisa para ela morrer. O meu destino, porém, não tem a força de ser mortal para qualquer coisa. Tem a fraqueza de ser mortal nas coisas para mim.
(*) Livro do Desassossego - Fernando Pessoa
quinta-feira, 17 de junho de 2010
domingo, 30 de maio de 2010
segunda-feira, 17 de maio de 2010
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Num quarto azul
Deitei na cama de cima do beliche e comecei a pensar sobre aquele quarto que então era meu. O armário embutido que ocupava uma parede toda, os buracos e farelos de cupim, o “Tânia, a primeira! 1980” rabiscado à caneta na parte interna da porta. Tânia deve ter desfrutado desse armário menosvelho com cheiro de madeira gostosa há exatos 30 anos, quando as roupas ainda ficavam limpas e seguras ali dentro e as prateleiras ainda existiam – não apenas seus furos -, indícios de um passado menos miserável. Se Tânia ainda vive, já deve ter passado dos 50; talvez tenha pego por hábito rabiscar cada armário novo que encontrou ao longo dos anos ou talvez já seja avó. Eu, com 23, sinto que pesaria demais rabiscar meu nome ali ao lado de Tânia, para daqui a 30 anos (pois daqui a 30 anos esse armário certamente continuará por aqui) alguém refletir e supor alguma coisa sobre minha existência, alguma coisa talvez mais digna do que terá sido minha real existência.
Li Tânia rabiscado ali e lembrei de outro lugar, outra noite, quando conheci um prédio com esse nome. Ri quando me falaram sobre esse tal prédio chamado Tânia pela primeira vez, mas quando vi a porta do armário pensei: destino? ou talvez seja só essa necessidade que às vezes parece um tanto estúpida, essa coisa de querer achar um significado em tudo. ou Tânia talvez tenha se formado aqui e foi para Lajeado construir um prédio, quando profetizou: em 2010, isso tudo fará sentido.
Mas a noite em que deitei no beliche e comecei a pensar sobre aquele outro já passou faz tempo. muitas coisas poucos dias se passaram desde o último final de semana sóbrio – breve pausa antes de tudo que estava por vir. o porvir, leve véu azul que cobre minha janela e deixa transparecer nossos anseios, de todos nós e desses anos que nos separam de algo que talvez não seja nada.
- nada não é nada - ela disse. mas pra eles era tudo, aqueles anos e o véu que brilhava com as gotas depois da chuva no sol.
Depois da noite em que deitei no beliche as coisas mudaram todas; e eles disseram:
- tudo que temos são todos esses caminhos que estão à nossa frente, mas estamos aqui parados porque isso é tudo.
Peguei minha cesta de vime e saí pelo caminho, e tudo de gostoso que há na cesta é dividido com todos que trazem tudo que têm e assim todos temos tudo e tudo é nosso.
Talvez naquela noite azul eu tenha decidido não esconder minha lunaticidade de mais ninguém, o que atraiu todos os lunáticos carentes das bandas da capital – se é que não fui eu atraída para junto deles, nova integrante do clube dos que ouvem Beatles e Dylan enquanto estudam.
Como se as coisas fizessem sentido, como se ouvisse a voz de Devin dizendo i saw god, como se eu mesma tivesse visto deus numa noite da boa, como se deus tivesse me dito
- ela não sabe o que há por vir, cubram-na com o véu!
coberta com o véu bati na porta do quarto em frente e me disseram
- pode ficar; aqui pagarás o preço por tudo que de bom existe aqui.
e eu disse
- como foi escrito
e bebi de tudo que eles tinham para oferecer, e conversei naquela noite por duzentos anos com cada um que encontrei, e lhes falei
- cada um com seu mundo, dividimos todos o mesmo universo.
nos encontraremos
quando perdermos
todo o resto.
falamos sobre como deveria ser fácil se perder desse jeito, mas você sabe que é encontrado quando começa as frases com maiúsculas.
- minhas palavras são pra todos vocês.
alguém perguntou
- vocês quem?
- vocês todos, cada você que possa existir, um você diferente quando quiser, e todos vocês quando enjoar de você.
Foi quando você saiu e disse que eu era confusa demais, disse que precisava ir e esses poucos dias que passaram desde então parece já tanto mais tempo, vocês todos parecem tão diferentes e eu sou tão vocês e tão pequena quando venta na sacada, tão leve quando é segunda de chuva que penso se não poderia sair voando se me atirasse do quinto andar
- mas o quinto andar é o melhor de todos!
você disse e eu
- sei, é por isso que não me atiro.
Copiei do quadro as questões como se fosse mesmo respondê-las, fiquei com vergonha que você pensasse que não me importo. A primeira copiei igual, e na metade da segunda comecei a falar sobre como chovia e como era cinza a segunda e que coincidência que era falar sobre a segunda justamente na segunda questão. então era eu parada no meio daquela rua calçada de cinza, por onde nem os carros nem você passavam. e era eu como se estivesse na rua; era eu no ônibus e fora era cinza e verde e chovia quando você disse
- oi, pequena
e daí era eu 4 anos dizendo
- feliz dia das mães, é chuva é chuva
e você vindo por cima da ponte com a cabeça cheia de luz do sol, logo atrás todachuva do mundo e os trovões
- somos você, somos todos os vocês que te encontrarão.
é você agora e eu daqui a 20 anos, sentada no ônibus com a chuva lá fora e pensando o que terá acontecido com aquele quadro que tinha um anjo e duas crianças sobre uma ponte, é você dizendo:
sou você há 10 anos: brilhará como brilhei e sofrerá.
é você há 10 anos, sentada no ônibus grata por ser quente e seco ali, tão parecido com metrô europeu só que mais amarelo, ali você pensou: ama: e percebeu que toda a chuva era ali fora como você nunca seria, fluindo do pó à lama e terminando cada madrugada numa outra cama.
- não consigo dormir
você disse, mas o que ouvi foi você querendo um chocolate alpino e falando sobre um almoço feliz numa cidade cheia de zumbis, então eu queria que você parasse de misturar doces com essas coisas, te puxei pra cima de mim e você disse
- quero dormir
fiz um pensamento circular e coloquei-o sobre sua cabeça como uma coroa, um halo de luz do sol, a chuva batia contra a janela e o dia já não era cinza: era noite
me puxou sobre você quando o escuro era bom
- é todo esse vazio que está entre minhas pernas: preencha-o
e estive dentro de você até que não me quisesse mais, até raiar outro dia onde você continua parado no meio da rua, onde estive há vinte anos e quis me perder.
- fujo quando cai a noite porque a chuva me faz fluir.
crescemos com a imaginação longe daqui, lá onde se pode ouvir os teclados espaciais de uma saga em terras longe demais de se alcançar.
Li Tânia rabiscado ali e lembrei de outro lugar, outra noite, quando conheci um prédio com esse nome. Ri quando me falaram sobre esse tal prédio chamado Tânia pela primeira vez, mas quando vi a porta do armário pensei: destino? ou talvez seja só essa necessidade que às vezes parece um tanto estúpida, essa coisa de querer achar um significado em tudo. ou Tânia talvez tenha se formado aqui e foi para Lajeado construir um prédio, quando profetizou: em 2010, isso tudo fará sentido.
Mas a noite em que deitei no beliche e comecei a pensar sobre aquele outro já passou faz tempo. muitas coisas poucos dias se passaram desde o último final de semana sóbrio – breve pausa antes de tudo que estava por vir. o porvir, leve véu azul que cobre minha janela e deixa transparecer nossos anseios, de todos nós e desses anos que nos separam de algo que talvez não seja nada.
- nada não é nada - ela disse. mas pra eles era tudo, aqueles anos e o véu que brilhava com as gotas depois da chuva no sol.
Depois da noite em que deitei no beliche as coisas mudaram todas; e eles disseram:
- tudo que temos são todos esses caminhos que estão à nossa frente, mas estamos aqui parados porque isso é tudo.
Peguei minha cesta de vime e saí pelo caminho, e tudo de gostoso que há na cesta é dividido com todos que trazem tudo que têm e assim todos temos tudo e tudo é nosso.
Talvez naquela noite azul eu tenha decidido não esconder minha lunaticidade de mais ninguém, o que atraiu todos os lunáticos carentes das bandas da capital – se é que não fui eu atraída para junto deles, nova integrante do clube dos que ouvem Beatles e Dylan enquanto estudam.
Como se as coisas fizessem sentido, como se ouvisse a voz de Devin dizendo i saw god, como se eu mesma tivesse visto deus numa noite da boa, como se deus tivesse me dito
- ela não sabe o que há por vir, cubram-na com o véu!
coberta com o véu bati na porta do quarto em frente e me disseram
- pode ficar; aqui pagarás o preço por tudo que de bom existe aqui.
e eu disse
- como foi escrito
e bebi de tudo que eles tinham para oferecer, e conversei naquela noite por duzentos anos com cada um que encontrei, e lhes falei
- cada um com seu mundo, dividimos todos o mesmo universo.
nos encontraremos
quando perdermos
todo o resto.
falamos sobre como deveria ser fácil se perder desse jeito, mas você sabe que é encontrado quando começa as frases com maiúsculas.
- minhas palavras são pra todos vocês.
alguém perguntou
- vocês quem?
- vocês todos, cada você que possa existir, um você diferente quando quiser, e todos vocês quando enjoar de você.
Foi quando você saiu e disse que eu era confusa demais, disse que precisava ir e esses poucos dias que passaram desde então parece já tanto mais tempo, vocês todos parecem tão diferentes e eu sou tão vocês e tão pequena quando venta na sacada, tão leve quando é segunda de chuva que penso se não poderia sair voando se me atirasse do quinto andar
- mas o quinto andar é o melhor de todos!
você disse e eu
- sei, é por isso que não me atiro.
Copiei do quadro as questões como se fosse mesmo respondê-las, fiquei com vergonha que você pensasse que não me importo. A primeira copiei igual, e na metade da segunda comecei a falar sobre como chovia e como era cinza a segunda e que coincidência que era falar sobre a segunda justamente na segunda questão. então era eu parada no meio daquela rua calçada de cinza, por onde nem os carros nem você passavam. e era eu como se estivesse na rua; era eu no ônibus e fora era cinza e verde e chovia quando você disse
- oi, pequena
e daí era eu 4 anos dizendo
- feliz dia das mães, é chuva é chuva
e você vindo por cima da ponte com a cabeça cheia de luz do sol, logo atrás todachuva do mundo e os trovões
- somos você, somos todos os vocês que te encontrarão.
é você agora e eu daqui a 20 anos, sentada no ônibus com a chuva lá fora e pensando o que terá acontecido com aquele quadro que tinha um anjo e duas crianças sobre uma ponte, é você dizendo:
sou você há 10 anos: brilhará como brilhei e sofrerá.
é você há 10 anos, sentada no ônibus grata por ser quente e seco ali, tão parecido com metrô europeu só que mais amarelo, ali você pensou: ama: e percebeu que toda a chuva era ali fora como você nunca seria, fluindo do pó à lama e terminando cada madrugada numa outra cama.
- não consigo dormir
você disse, mas o que ouvi foi você querendo um chocolate alpino e falando sobre um almoço feliz numa cidade cheia de zumbis, então eu queria que você parasse de misturar doces com essas coisas, te puxei pra cima de mim e você disse
- quero dormir
fiz um pensamento circular e coloquei-o sobre sua cabeça como uma coroa, um halo de luz do sol, a chuva batia contra a janela e o dia já não era cinza: era noite
me puxou sobre você quando o escuro era bom
- é todo esse vazio que está entre minhas pernas: preencha-o
e estive dentro de você até que não me quisesse mais, até raiar outro dia onde você continua parado no meio da rua, onde estive há vinte anos e quis me perder.
- fujo quando cai a noite porque a chuva me faz fluir.
crescemos com a imaginação longe daqui, lá onde se pode ouvir os teclados espaciais de uma saga em terras longe demais de se alcançar.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Gia
Yeah, I go see, I go see.
Nobody sees me.
"Ah, piece of meat, come here.
Show me your bag."
And they stick their finger in you.
"I just wanna taste your temperature."
Go see, go see, go see,
go see somebody else.
I ain't no good at this.
I ain't no good at this at all.
But even if you are good at it,
what, exactly, are you good at?
(trecho do diário de Gia Carangi)
Nobody sees me.
"Ah, piece of meat, come here.
Show me your bag."
And they stick their finger in you.
"I just wanna taste your temperature."
Go see, go see, go see,
go see somebody else.
I ain't no good at this.
I ain't no good at this at all.
But even if you are good at it,
what, exactly, are you good at?
(trecho do diário de Gia Carangi)
terça-feira, 4 de maio de 2010
the unforgettable fire
walk on by
walk on through
so sad to beseige your love so head on
stay in this time
stay tonight in a lie
i'm only asking but i
i think you know
come on take me away
come on take me away
come on take me home
home again
walk on through
so sad to beseige your love so head on
stay in this time
stay tonight in a lie
i'm only asking but i
i think you know
come on take me away
come on take me away
come on take me home
home again
(U2)
sábado, 1 de maio de 2010
nada
essas coisas não são tão óbvias quanto podem parecer após uma garrafa de vinho numa sexta à noite para curar um orgulho ferido.
eu não tenho orgulho
nem o que ferir:
não bebo.
vem você com o coração engolido pela razão comprada num sebo
- custou bem barato
e acredito mesmo: você esteve atrás de uma razão qualquer,
agarrou-a e seguiu
sem sentido
sem sentir
e todos os caminhos do mundo
te levam
para o meio
do nada.
você conhece todas as palavras mais difíceis para falar sobre o nada
e quando surge algo para ser dito
- elas me fogem todas
é o que diz.
nothing
rien
nada
niente
nichts
me diz ao ouvido, como se eu estivesse competindo para saber mais sobre o nada que você
- mas ei
digo
- não sei palavras bonitas, e algumas pessoas simplesmente não merecem
nenhuma.
eu não tenho orgulho
nem o que ferir:
não bebo.
vem você com o coração engolido pela razão comprada num sebo
- custou bem barato
e acredito mesmo: você esteve atrás de uma razão qualquer,
agarrou-a e seguiu
sem sentido
sem sentir
e todos os caminhos do mundo
te levam
para o meio
do nada.
você conhece todas as palavras mais difíceis para falar sobre o nada
e quando surge algo para ser dito
- elas me fogem todas
é o que diz.
nothing
rien
nada
niente
nichts
me diz ao ouvido, como se eu estivesse competindo para saber mais sobre o nada que você
- mas ei
digo
- não sei palavras bonitas, e algumas pessoas simplesmente não merecem
nenhuma.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
terça-feira, 27 de abril de 2010
would?
todo mundo tem que ir tem que ir tem que ir
pra onde todo mundo vai?
todo mundo sempre vai
meu quarto cheio - tanta gente vem, tanta gente sorri, tanta gente quer estar aqui
mas todo mundo sempre vai.
quando o coração pesa
estou sempre sozinha no meio de todos.
todos estão, mas ninguém com quem eu queira estar.
pra onde todo mundo vai?
todo mundo sempre vai
meu quarto cheio - tanta gente vem, tanta gente sorri, tanta gente quer estar aqui
mas todo mundo sempre vai.
quando o coração pesa
estou sempre sozinha no meio de todos.
todos estão, mas ninguém com quem eu queira estar.
sábado, 17 de abril de 2010
sábado, 10 de abril de 2010
party people
A João Alfredo lotada depois da meia-noite, cada garota passando com um perfume diferente e enjoado que nem cabelo liso. e eu sozinha, com meus fones e aquela cara de quem saiu de casa às oito da manhã e passou o dia na rua - que é a cara daqueles que gostam de andar sozinhos pela noite.
gosto de andar sozinha por aí e pensar em você.
O violator a todo volume, cheio de promessas que algum dia talvez já tenham sido cumpridas por alguém
I'll take you to the highest mountain
To the depths of the deepest sea
And we won't need a map
Believe me
Now let my body do the moving
And let my hands do the soothing
Let me show you the world in my eyes
Você acredita? eu, sim.
Todas as garotas com calças tão iguais, todas tão bonitas e tão dispostas a passar uma noite como toda uma vida igual. Passei por entre todos como uma sombra, na estranha alegria de andar sozinha por entre as luzes coloridas, a vontade de estar aí longe crescendo a cada esquina. Acendi um cigarro e lembrei do cáqui que Alice me deu no começo da tarde quando disse: "eu mesma colhi". mas em poucos segundos meus pensamentos, todos eles, voltaram pra você e assim continuaram até eu chegar em casa e até agora.
gosto de andar sozinha por aí e pensar em você.
O violator a todo volume, cheio de promessas que algum dia talvez já tenham sido cumpridas por alguém
I'll take you to the highest mountain
To the depths of the deepest sea
And we won't need a map
Believe me
Now let my body do the moving
And let my hands do the soothing
Let me show you the world in my eyes
Você acredita? eu, sim.
Todas as garotas com calças tão iguais, todas tão bonitas e tão dispostas a passar uma noite como toda uma vida igual. Passei por entre todos como uma sombra, na estranha alegria de andar sozinha por entre as luzes coloridas, a vontade de estar aí longe crescendo a cada esquina. Acendi um cigarro e lembrei do cáqui que Alice me deu no começo da tarde quando disse: "eu mesma colhi". mas em poucos segundos meus pensamentos, todos eles, voltaram pra você e assim continuaram até eu chegar em casa e até agora.
domingo, 21 de março de 2010
estou aqui, estou sozinha
Olhei minha cara no espelho: não lembro quando foi a última vez que tive olheiras tão fundas. penso se são por dormir no sofá, por não lembrar de sonho algum ou por não ter sono. ou talvez pudesse ser o coração partido ou o calor, ou talvez fossem todos juntos mais a fome. E comecei a pensar um pouco sobre a época atual: como pode doer tanto e ao mesmo tempo tamanha leveza? talvez tenha feito tudo que pude, mas às vezes tudo não é muita coisa, e é então que você passa a fazer nada e vai pra longe e fica um tempo embaixo da cama esperando que o dia melhore. Chego a pensar que Queen me fez persistir e continuar fazendo o melhor possível. nunca imaginei que fosse baixar aleatoriamente um álbum do Queen e ouvir sem parar, e também nunca pensei que fosse num show do Megadeth e que eles tocariam todo o RIP. Pensei que iria contigo, mas agora torço pra não te encontrar por lá porque sei que você também não vai perder isso por nada. Pensei em fazer outra tatuagem e te convidar pra ir junto, pensei em perguntar se você também não achava genial Smooth Criminal vir logo depois de Dirty Diana, pensei em te ligar.
sábado, 20 de março de 2010
Violetas

Em 1963, o monge budista Thich Quang Duc ateou fogo ao próprio corpo em protesto contra a perseguição religiosa no Vietnã do Sul. O fotógrafo Malcolm Browne registrou o silencioso protesto do monge nas ruas de Saigon. morreu imóvel, sem emitir um suspiro sequer.
É a imagem da fé suprema em algo que transcende a lógica, e pra mim também ilustra a frase de Mark Twain: "Perdão é o perfume da violeta sob o calcanhar por qual foi esmagada". Eu acredito em karma, ele existe e vejo-o claramente: vejo a dor que algúem causa, vejo a dor que recebe logo ali adiante. Nunca devemos dizer (ou mesmo pensar): por que você fez isso comigo? Ninguém pode fazer algo conosco sem que consintamos com isso em algum nível.
Aprendemos a culpar os outros - às vezes até encontramos alguém que assume a culpa que é nossa, em silêncio, e daí nossa razão está satisfeita. Aprendi que não faz diferença discutir de quem é a culpa ou jogar nossa razão na cara de alguém, porque cada um sabe a verdade em seu coração (ainda que inconscientemente). E é por essa verdade que pagamos, não pelas coisas que inventamos pra justificar e dar sentido racional a todo o resto; a dor que você causa agora é a dor que caminha ao seu encontro e que te tocará onde mais machuca: é a solidão, é o carro roubado, é o corpo ferido.
Não vou desistir desse caminho, não vou deixar de sonhar. Estou caindo aos pedaços, mas vejo ali fora alguns raios de sol e resta em meu coração, lá no fundo, esperança - e é isso que me faz sorrir depois de chorar. Viver sem esperar nada é viver sem esperança, na frieza da apatia; não desisti: ainda resta calor aqui dentro.






