quinta-feira, 28 de maio de 2009

Treasures






















ffffound!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Eu, descoberta

A veneziana abriu com o vento - e isso é tudo o que ouço vindo lá de fora, o vento. É estranho como aqui o tempo parece não passar: pessoas, vento, pensamentos, tudo parece estar sempre ao acaso, mansamente acomodado na tranquilidade oriunda da mediocridade. Não dá nem vontade de caminhar pelas ruas, as sombras parecem não gostar das calçadas daqui.
E eu com isso?
Eu não sei. Amanheci de luto pela tomada de consciência que a noite me trouxe, calada pela vontade de não estar. sem vontade de falar, sem vontade de encarar. Tenho ao meu redor todos esses textos, o resumo de algo abominável e também adorável, que me faz sentir burra e comum. Não tenho vontade deles, mas também não tenho vontade de C. Lispector e suas maximizações dramáticas da tomada de consciência da mulher comum - sempre igual. já tenho a minha tomada de consciência, e basta.
Descobri há alguns dias que preciso escrever. preciso, mas não como obrigação - como a que tenho com esses textos, que abarrotam minha escrivaninha e forram meu caminho até a formatura no austero salão de atos da UFRGS -, preciso para ser completa, eu mesma. Ao descobrir que preciso escrever, instantaneamente senti uma desnecessidade de me preocupar com a aparência e a opinião alheia, um relaxamento como até então nunca havia experimentado ao longo desses meus anos de existência. o fim de uma agonia que há tempos aterrorizava e sufocava minha alma: a sapiência de que eu estava fora do meu caminho, de que estava em outro lugar a peça que faltava à minha integridade sentimental.
Descobri que precisava escrever.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A que ponto chegamos?

Aos que procuram coisas intrigantes, fofas e desnecessárias pela internet:

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Sexta

Passei a tarde olhando as nuvens e o céu azul e o vento lá fora, olhando o pedaço do céu que consigo avistar por cima do muro através da janela. Passei a tarde querendo sair, querendo sair e caminhar com o vento, conversar como há tempos não converso. Escureceu e a lua cheia se impõe naturalmente no céu sem nuvens nem estrelas, e eu continuo aqui dentro, sentindo o vento que passa pelas frestas da janela e vendo um recorte da noite.
Meu sonho mais constante desde sempre é um campo com vários arbustos pequenos e uma grande árvore bem no meio... e a sensação que tenho é que pertenço àquele lugar. e vou passar a vida inteira procurando aquele lugar, onde eu vou me sentir inteira e toda a dor irá embora.
dor. Tenho dentro de mim tanta dor que já aceitei a impossibilidade de conviver sem isso. sei que sou melancólica e que vou passar boa parte da vida triste, que vou estar fazendo todos sorrirem e precisarem de mim e a dor vai estar ali o tempo todo sem ninguém sequer suspeitar. Não é uma questão de gostar ou de querer, mas de aceitar.
É sexta e tem lua cheia e eu quero saudá-la, vou me vestir e subir no muro para conversar com ela.
Segunda vou acordar e prometer a mim mesma novamente que não chegarei atrasada, mas tudo vai dar errado como sempre e vou chegar às 8:15. vou ligar o computador e prometer a mim mesma que não digitarei tudo bem? como foi o feriado? vou subir sabendo que vou, e a dor aqui dentro no fundo é a dor de uma criança que não quer atrapalhar, mas só quer um abraço e todos os abraços dos anos que passaram.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Sobre formigas e humanos

Eu estava no ônibus, por volta das 9 da noite, observando como sempre o movimento e as luzes de Porto Alegre. Na esquina da João Pessoa com a Ipiranga, um guri com cerca de 15 anos faz malabarismo com 3 bolas em frente aos carros parados na sinaleira; uma das bolinhas cai, ele abre um sorriso para o motorista e começa a caminhar ao lado do veículo a fim de recolher a bolinha caída. pensei que nesse momento o motorista abriria o vidro e daria sua contribuição ao garoto, ou que ao menos trocaria uma palavra com ele – não: nem ele, nem nenhum dos outros motoristas. O garoto voltou à calçada quando o sinal ficou verde, ainda sorridente.

Senti vontade de ir lá e conversar com ele, mas não fui. a mesma sensação que eu tinha quando era criança e queria  comprar e libertar todos os animais presos em pet shops e adotar os que estavam abandonados nas ruas; isso me dava um aperto no peito e me fazia chorar quase todas as noites. O que eu poderia fazer por todos aqueles bichos arrancados da selvageria para serem largados em meio ao caos? O que eu poderia fazer por aquele garoto? Não muito.

Não quero e nem pensei em direcionar estas linhas no sentido de uma "conscientização da realidade sócio-econômica brasileira" – que se ocupem disso os intelectuais das academias de ciências sociais e humanas, que adoram teorizar o caos e a realidade.

Voltei meu olhar para o interior do ônibus: todos com corpos e expressões cansadas, exauridas, como eu. todos os carros seguindo na pista, todas as pessoas caminhando na calçada, todo mundo daquele jeito. A imagem imediata que veio à minha cabeça foi a de um formigueiro (no sentido literal: formigas carregando pedaços de folhas de árvores nas costas). e a ironia disso. Fala-se em livre arbítrio, na inteligência com que foi agraciada a espécie humana; no fim, estamos tão atrelados à rotina e ao sistema quanto as formigas. Fazendo sempre as mesmas coisas, mudando hábitos aqui e ali, mas sempre vivendo do mesmo jeito.

Daí você abre um e-mail que lhe diz para "gostar do que faz": conforme-se e contente-se com a felicidade limitada. Temos que escolher algo de que gostemos o suficiente – seja por alguma facilidade, seja por falta de oportunidade, seja por pagar bem – o suficiente para que façamos e façamos isso pelo resto da vida. e devemos aceitar que não poderemos fazer o que quisermos quando quisermos, mas retardar isso e canalizar em forma de "hobby". Uma carreira, é assim que denominam isso, e é quase impossível fugir disso – aliás, esse é o curso natural das coisas. Quem vive aparte, alheio as preocupações abstratas geradas pela administração do sistema, é como o garoto da sinaleira, sorrindo ao ser ignorado pelas formigas operárias.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Enquanto alguém falava sobre a chamada “revisão conservadora”

Ele entrou na sala – na sala tão cheia de rostos tão vazios e descoloridos perdia-se tanto que reconhecia a si próprio apenas como ele. Aula de teorias que tentavam explicar os vazios e lhe auferir alguns por quês, pensou, e também pensou que poderia estar em casa bêbado no chão e no escuro. Perdeu-se em algum ponto entre a acomodação das elites cariocas e a relação das províncias enquanto o governo central com mão de ferro massacrava a todos. Estava frio. Ele olhava ao redor e percebeu, como nunca antes percebera, que toda a cor da sala concentrava-se num único ponto: as paredes eram bege, o piso era creme, as luminárias eram gelo: os únicos resquícios de cor estavam todos no quadro negro que era verde desbotado e empoeirado.
Estava caído e bêbado no chão escuro de casa, e era ele mesmo outra vez. De repente, ele olhou para o lado: ela estava ali, toda ela, bem ali.

Anotações gerais sobre tudo menos História da América II

Lá fora está tocando Lucy in the Sky with Diamonds. Tatuagens de listras em braços estão na moda. Uma cigarra entrou na sala. No canto do quadro está escrito formandos 2009 ou 2010 - Pantheon. O carioca veste uma camiseta vermelha com o guerreiro escrito em relevo nas costas. Não quero saber sobre as idéias de Fernando VII.

sábado, 21 de março de 2009

just in case

O problema é que eu imagino todas as conversas, as mais magníficas e sagazes falas para os meus personagens. Momentos-chave e de grande complexidade, onde tudo faz sentido e revigora a trama.
Mas a trama não existe, apenas esses momentos. A trama se forma instantaneamente em minha cabeça, os personagens e suas motivações - mas duram apenas o tempo desses momentos. Quando começo efetivamente a compor e transcrever a trama, sou tomada por uma sensação de desnecessariedade: a trama já está formada em minha cabeça, por que descrever cada detalhe novamente? - e é por isso que todas as conversas magníficas e sagazes nunca acontecem. Apenas eu mesma fico sabendo, tudo trancafiado dentro de mim: sempre fui uma péssima contadora de histórias.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Eldorado, besouro sem sobrenome

Era um besouro entre os cães, esse Eldorado. Eram muitos cães e Eldorado esperava rosnados e outras coisas mais violentas que cães fazem sem ter motivo. Qualquer movimento e todos o olhavam – era um besouro e muitos cães. É verdade que eram cães de comportamento muito refinado e muito caros, do tipo que obedece mesmo; mas eram cães e ele era um besouro, para todo o sempre desconfiaria das intenções da matilha. tinha certeza de que eles já tinham um plano tramado para o caso de os ventos mudarem de direção.

Ora, ele estava ali para prestar seus serviços, tinha um contrato assinado que garantia sua imunidade e assegurava um relacionamento completamente profissional entre ele e os cães. Eram bons cães! Recostou-se na cadeira e relaxou – eram bons cães. Olhou para o cão sentado na mesa à sua frente, o olhava e estava com o canino esquerdo de fora. Descuido, não era nada. Ele era Eldorado e tinha uma reputação magnífica o precedendo, por isso estava ali cumprindo um contrato vantajoso. Não tinha dado nenhum motivo para que os cães o tratassem de forma hostil e eram cães refinados. Bobagem era essa mania de perseguição: eram tempos modernos e civilizados, tudo era fruto de sua imaginação e sabia que os cães seriam incapazes de lhe fazer qualquer coisa.

Da carapaça tirou um copo branco de plástico, foi até o galão de água mineral e o encheu. Voltou com ele na mão, caminhando devagar – o copo estava bem cheio. O ruim de voltar devagar é que sempre se chama mais atenção do que gostaria, e aquele ambiente já era detestável normalmente: caminhar devagar só piorava tudo. Não precisava desviar o olhar do copo para saber que vários pares de olhos deveriam estar-lhe acompanhando a cada passo. Passou em frente à mesa de Robinfon o fuça comprida e sentiu um leve tremor percorrer-lhe o corpo e isso fez com que derramasse algumas gotas da água do copo no piso. Eldorado olhou para o piso e depois para Robinfon: Robinfon o olhava de volta. Ele ouviu, tinha certeza que ouviu um rosnado abafado vindo dele.

Hesitou durante alguns segundos, olhou para o copo. Robinfon o fuça comprida continuava acompanhando seus movimentos, apoiou os cotovelos sobre a mesa e o queixo sobre as duas patas para observá-lo mais atentamente. Num giro rápido de corpo inteiro, Eldorado aproveitou o embalo e jogou a água do copo toda na cara de Robinfon. O ambiente se aquietou; Robinfon passou a pata pela cara e prostrou-se sobre as quatro patas e avançou na direção do besouro. Eldorado fez e não sabia por que, e não sabia o que fazer agora. Sua carapaça se abriu: há tanto tempo não usava suas asas que até havia esquecido delas. Voou.

Olhou para trás quando já estava a uma altura segura: Robinfon o fuça comprida estapeava Esteta o seios fartos e o resto dos cães estava reunido em torno da cena fazendo grande alarido.

Eldorado voaria e faria apenas isso pelo resto da vida: tinha asas.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Cães na sexta-feira 13

Foi numa sexta-feira à tarde isso. O ambiente já estava calmo, clima de domingo no ar. Robinfon o fuça comprida espreitava por cima dos ombros dos companheiros à procura de uma notícia viva - era o mais algoz dentre os matadores de notícias: matava-as e corria com elas na boca, frescas, e enroscava-se por entre as pernas de seu humano como se estivesse no cio. assim estava Robinfon o fuça comprida; Esteta o seios fartos estava sentado em sua cadeira de rodinhas, rodando em torno de si mesmo para estimular o suor - É saudável pra emagrecer, dizia.
Um dos filhotes aparece na porta, olhos esbugalhados, arfando.
- Achei algo que pode ser útil... um pouco sujo de lama, sinto muitíssimo, mas já tava assim quando encontrei. - disse o filhote
- Oh, tome um biscoito, fofo filhote, pegue o biscoito - isso. Sente-se aqui do meu lado e conte-me tudo, oh sim, tudo! - falou Robinfon o fuça comprida
O filhote segurou o biscoito entre as patas e deixou cair um envelope no chão. Robinfon o fuça comprida o recolheu e cheirou.
- Hum, sim sim, ainda está fresco, fresquíssimo! - constatou Robinfon o fuça comprida
Ao ouvir isso, Esteta o seios fartos parou de girar em torno de si na cadeira de rodinhas e se aproximou um pouco mais do filhote, assim: o filhote sentado numa cadeira, entretido com o biscoito, Robinfon o fuça comprida de pé em frente ao filhote, com as duas patas unidas em frente ao peito, e Esteta o seios fartos ao lado esquerdo de Robinfon o fuça comprida, em sua cadeira de rodinhas.
- Mas ora, veja só isto, veja Esteta: temos aqui alguém perfeito para o próximo sacrifício. - disse Robinfon o fuça comprida
- Deixa pra mim ver aqui, passa isso pra mim que eu quero! - falou Esteta o seios fartos, e num movimento incrivelmente ágil para o seu tamanho abocanhou o envelope
Robinfon o fuça comprida deu uma patada na orelha de Esteta o seios fartos e gritou:
- Seu porco rechonchudo, seu monstrinho, isto aqui não é uma tigela de lavagem e não há motivo para tanta euforia! Olhe só o que aconteceu, seu vermezinho!
Esteta o seios fartos havia ficado com um pedaço do envelope na boca, cuspiu-o. Voltou para a cadeira de rodinhas.
- Muito bem, acalme-se - isso. Vejamos o que diz aqui: - falou Robinfon o fuça comprida, já recomposto em seus modos dignos e refinados - aqui diz, é uma prova explícita na verdade, a prova de que alguém cometeu um erro. Oh!
- Erro erro erro! Delícia! - disse Esteta o seios fartos e voltou a girar na cadeira de rodinhas
- Eu vou, Esteta, eu vou: fique aqui e apenas observe. - falou Robinfon o fuça comprida
Com o envelope na boca, Robinfon o fuça comprida caminhou mansamente até a porta do humano e pôs-se a arranhá-la. A porta foi aberta. Esfregou-se por entre as pernas do humano e deixou cair o envelope a seus pés. O humano leu atentamente os dizeres contidos no envelope e ao final disso encostou gentilmente a ponta do indicador na fuça de Robinfon o fuça comprida.
E Robinfon o fuça comprida voltou para o meio dos seus: mais uma vez, achara alguém que pudesse ser sacrificado no lugar dos seus ou dele mesmo. Ao menos por enquanto estavam expurgados, não seria dessa vez que pagariam o preço pela vida de cães que escolheram levar.

Autumn


















Autumn - Jacek Yerka

The room farm



















The room farm - Jacek Yerka

The epitaphy


















The epitaphy - Jacek Yerka

Midsummer night's dream
















Midsummer night's dream - Jacek Yerka

Between heaven and hell















Between heaven and hell - Jacek Yerka

terça-feira, 10 de março de 2009

Ao meu redor

Essa gente, essa gente toda ao meu redor... falando, ruminando picuinhas e vomitando a vida ali no ralo. Falam todos ao mesmo tempo, cada qual com sua fala - a mais importante.
Do meio da cacofonia, um grita:
- Acho horrível mulher de unha curta!
E outro:
- Meu crachá rachou bem na cara, estragou minha foto, estragou minha foto!, preciso de um novo! - sem saber que um novo crachá não mudaria nada: morrerá com a alma estragada.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Cães

Pague um bom salário a alguém. É praticamente infalível. Melhor: junte um bando, dê a cada um deles uma mesa com telefone e computador com internet, dê-lhes uma torta ao final de cada mês e um aperto de mão no dia do aniversário.
Eles serão seus, comprados e com recibinho e tudo. O dono, Dono com letra maiúscula. Dono de seu tempo, de seu amor-próprio.
Eles serão seus e se sentirão felizes em chamar sua atenção.
Cães. Com maços de ordens de serviço na boca ao invés de bolinhas de borracha, cães.
Eles serão fiéis e vigiarão o resto da matilha por você, ficarão à espreita: ao farejar o menor sinal de revolta, correrão e se esfregarão por entre suas pernas com a notícia ainda viva e fresca na boca.
Afague-os então, diga-lhes o quanto é gratificante poder contar com criaturas assim, tão obedientes. Eles se aninharão a seus pés e ali ficarão durante o tempo que você quiser. Eles o idolatrarão, será para eles mais que os outros, mais que humano, um semi-deus. Um humano entre os cães.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Ellen e a máscara de ovo

Ellen desceu do ônibus exatamente às 6:47 da tarde. Ônibus lotado, como de costume; no horário de costume, com as roupas de costume. Caminhou até a porta do prédio, mais ou menos uma quadra longe da parada. Era estranho caminhar, ainda mais com a calça jeans frouxa como estava; na verdade, já havia algum tempo que sentia como se os fêmures estivessem desencaixando da bacia (e toda vez que pensava nisso, vinha-lhe à mente a imagem de um conjunto de coxa e sobre-coxa de frango cru - por que, afinal, era sempre ela quem tinha que comprar essas coisas num estranho lugar chamado Aves Decker, quando era criança). Mas a real verdade era que ela sempre teve um jeito de andar esquisito, e anos e anos andando dessa forma resultaram na tal sensação esquisita.
Subiu os 3 lances de escada e abriu a porta do apartamento: as gatas estavam esperando, como de costume: a preta e branca tentando sair pela porta aberta, a branca com manchas malhadas rolando no tapete da sala. 6:53, bem a tempo de assistir Grey's Anatomy. Tirou os tênis e as calças, encheu o pote de ração das gatas, e se atirou no sofá. Ligou a TV, e enquanto passavam os comerciais na tela, pensou no que faria durante as próximas horas; queria assistir ao seriado, depois ler, fazer exercícios e comer alguma coisa. Mas tinha a louça pra lavar, o que já vinha sendo adiado há uma semana. Sentiu uma espécie de gratidão à Sony quando o seriado começou e desviou seus pensamentos desse monte de coisas chatas - odiava estar de férias da faculdade e ainda assim não ter tempo pra quase nada e estar sempre cansada.
No intervalo, arrastou a bicicleta ergométrica até a sala - só assim conseguiria fazer ao menos alguma das coisas que havia planejado. Foi mais ou menos a essa altura da noite que surgiu a idéia de bater uma clara de ovo em neve e passá-la na cara, uma dessas coisas que passam em programas que dão dicas de beleza. Ela não lembrava onde havia visto isso, só lembrava que alguém tinha falado que servia como um bom lifting - como se ela soubesse o que significava lifting no mundo dos cosméticos.
Terminado o seriado, Ellen foi até a cozinha preparar seu lifting de clara de ovo, e aproveitou pra preparar um arroz enquanto as claras tornavam-se nevadas na batedeira. Esfregou o troço por toda a cara, colocou a tampa na panela de arroz, e foi até o computador dar uma fuçada pra passar o tempo. Mas o dito lifting fedia demais, e dava a sensação de plastificar a pele à medida que ia secando. Ela foi até o banheiro e lavou a cara, passou na cozinha e pegou a panela de arroz e uma colher. Quando estava chegando perto do sofá, alguém bateu à porta. Largou a panela no sofá, foi até a porta e espiou pelo olho mágico: era o síndico.
- Só um minuto - disse Ellen.
- Tudo bem - respondeu o síndico, com sua grave e sempre-cordial voz.
Foi até o cesto de roupa suja e catou a calça jeans. Perfeito: fedia a ovo (mesmo lavando a cara, o cheiro havia ficado impregnado, já que ela conseguira espalhar o troço de ovo em boa parte da franja) e estava toda suja e suada. Voltou até a porta, e ao abri-la deparou-se com o síndico e uma garota.
- Desculpa incomodar a essa hora - começou ele -, mas é que hoje de tarde essa jovem tava tomando banho e deixou cair o celular no pátio de vocês...
- Ah, sei... vocês só esperem um minuto, que vou ali fora pegar - respondeu Ellen.
Foi até a varanda, e voltou com 3 pedaços do que havia sido um V3 rosinha até alguma hora da tarde. Entregou-os à menina, que deixava transparecer a ansiedade no olhar e nos gestos; Ellen achou apropriado fazer algum comentário vago junto com a entrega dos cacos:
- Nossa, quebrou o vidro!, que pena...
- Muito obrigado, e desculpa o incômodo - disse o síndico, enquanto os dois se afastavam de sua porta.
Ellen fechou a porta e pensou: "Por deus, então existe mesmo gente que toma banho e deixa o celular na janela do banheiro?", começou a caminhar de volta pro sofá, "Tanto faz, também. Eu continuo gorda e insisto em jantar arroz, e ainda por cima fedo a ovo".

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

História de uma xícara

Oi ou boa noite: escolham.
Meu nome é Ellen e tenho algo a confessar: tô usando a mesma xícara há 3 dias. A mesma, com listras creme e verde-escuro. Uso, e depois encho de água; boto fora a água, e uso de novo - e assim é. Cereal, leite de soja com ovomaltine, chá e mel, e água de novo. E tem mais! - pasmem: também tô usando a mesma colher.
Minhas educadas e mais-cordiais condolências às pessoas que se sentiram moralmente ofendidas, mas tenho mais a declarar. Tento-me controlar obstinadamente pra resistir à tentação do ponto de exclamação. Sempre depreciei pontos de exclamação, até semana passada. Hoje me dei conta disso; todos os pontos exclamativos utilizados nos últimos dias transbordaram em minha memória, e me senti envergonhadíssima por te deixado a situação chegar a tal ponto: bom dia!, obrigada!, ligação no 607!, prezados colegas!, copo!, Clayton!, alô!, e tudo o que antes poderia ser expressado com um gentil ponto final ou final nenhum. Não que eu deseje ao ponto de exclamação o mesmo destino da desafortunada trema... o fato é que pessoas que abusam do ponto de exclamação sempre despertaram minha desconfiança: euforia demais, geralmente desnecessária. É um bom motivo pra começar a suspeitar que algo aconteceu comigo, algo de muito errado.
(continue acompanhando a trama, caro leitor. O que virá no próximo capítulo? Será que Ellen conseguirá abandonar os pontos de exclamação? Ou será que ela admitirá, finalmente, que o ponto de exclamação é a manifestação do desejo oculto reprimido que permanece atormentando seu subconsciente e passará a encerrar todas as frases com um trio de pontos de exclamação? Não percam!!!)

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Behind Crimson Eyes



















Behind Crimson Eyes - Derek Hess, 2006 (arte da capa do CD "A Revelation for Despair", da banda Behind Crimson Eyes)