quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

uma vez muito boa

a pergunta mais óbvia é a que se evita fazer - por julgar que óbvia também seja sua resposta.
decidi que estava pronta para tatuar uma vaca quando constatei que pouco me importariam os silêncios
(não se pergunta o que é óbvio)
com uma resposta óbvia para preencher a lacuna: "tatuei uma vaca por causa daquele álbum do Pink Floyd".

num dia de sol-primavera eu soube que precisava deixar Lajeado. fui até uma livraria comprar algo para meu amigo de infância, e abri um livro que dizia

Era uma vez e uma vez muito boa mesmo uma vaquinha-mu que 
vinha andando pela estrada e a vaquinha-mu que vinha andando 
pela estrada encontrou um garotinho engrachadinho chamado 
bebê tico-taco.

essas poucas linhas sem vírgula fenderam a rocha sob a qual eu me abrigara e à minha frente abria-se o portal que desde sempre esperei. precisava passar através dele, sair de lá.
entre os dois lados há escuridão. ao se passar de um lado a outro, o passado se transforma em sonho desfeito e inacessível.

a vaca é para lembrar que o outro lado do portal existe.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Tom Bagshaw

 Saint Criminal

Pandora 

Kuchisake-Onna

New Beginnings


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Sobre a mulher que tentou provar sua humaneidade

Olhava para a tela quebrada à sua frente.
(despedaçada pouco antes para provar que seu líquido não era mais quente que seu próprio sangue)
Percebeu que não havia nada a ser provado, nem ninguém para além da tela.
(cortara os dedos na tela e o sangue escorria quente por entre)
Queria estar longe e esquecida como se nunca tivesse sabido como é existir.
(existia sem nunca ter vivido)
Disseram que fora de onde o mundo é enquadrado numa janela, lá as pessoas são felizes.
(quis nunca ter olhado para fora)
Tirou a roupa manchada de sangue e olhou-se no espelho:
(reflexo de uma tela vazia)
tentou voar pela janela.
(sem a tela, nunca teria existido)

A tela está quebrada.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

#2

Pouca importância deu às palavras da feiticeira a senhora cristã. Julgava estar corrigindo o mal que Satã havia lhe feito por intermédio de uma pobre alma-objeto. Encomendou o serviço à feiticeira e, feito isso, sentiu sua consciência leve e lavada como sempre se deve estar. Poucos dias depois, sua filha Márcia conheceu um jovem estudante de administração e seus olhos voltaram a brilhar.
- Mamãe, precisa ver só como ele é eloquente! Pode ficar falando horas e horas sobre qualquer coisa, ele é fantástico!
Sua filha Márcia estava feliz. Justiça feita, a senhora cristã voltou à sua vida de bondades e esqueceu o incidente ocorrido com seu ex-futuro-genro e aquela outra moça grávida.

Paola tinha pouco mais de dois anos quando seus pais morreram num acidente de carro. Não tinha parentes próximos; foi adotada pelo único familiar que sabia sobre sua existência: a tia-avó de sua mãe, Constance.
A casa de Constance era a mais bonita de todas naquele bairro colorido onde fora construída.

sábado, 27 de novembro de 2010

Emmanuel Malin






(mais aqui)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010


domingo, 21 de novembro de 2010

entropia

vi felicidade nos olhos de pessoas rasas; pode ser
que felicidade seja algo raso - e eu, desengonçada e longe demais para caber nisso.
passei a manhã caminhando por ruas de casas felizes e recém-pintadas, com jardins e flores e pássaros. eu não caberia em nenhuma delas.
senti-me cinza passando pelas calçadas floridas. parada no meio de uma cidade feliz, cinza. quis arrancar as flores que fugiam das cercas, arrebentar as mãos nesse muro que cresceu ao meu redor. quis ter para quem voltar.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

dream time



witch montain

Samuel Palmer



domingo, 14 de novembro de 2010

#1

Quando Paola nasceu, uma senhora cristã muito digna encomendou um feitiço para entristecer sua mãe, que havia roubado e casado e engravidado do noivo de sua filha Márcia.
E quando fez a encomenda à feiticeira, ela disse:
- Quero daquela maldita toda a esperança que roubou de minha pobre filha. Minha filha foi arruinada! Pagará, pois, com a ruína do ser que carregou no próprio ventre!
A feiticeira lhe explicou que tal ato implicaria em terríveis tramas que só o tempo desvelaria e fez seu preço. E pronunciou as seguintes palavras:
- Que assim seja: cresça a menina pequeno monstro, e cresça ainda mais a sombra que anuncia sua chegada a este mundo. Que vague eternamente solitária, que assuste a todos que dela se aproximarem: que seja um monstro.

Paola ainda era um bebê de berço quando sua mãe percebeu algo perturbador: a criança parecia brincar com as sombras. E aqueles pequenos atos de sua filha recém-nascida a perturbavam de maneira inexplicável.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Manhã no espelho (concebendo você)

E como será a manhã na Terra, amanhã? Será de todo céu azul em sintonia com as sinfonias que evadem minha janela em manhãs primaveris?
Se você perceber a plantinha que brotou à beira do caminho
(fruto da chuva que ontem fez barulho pra encobrir o choro velado de quem apenas tem a música como companhia e o riso frenético de
quem, desta vez, perdeu a sanidade)
o sol já poderá brilhar e, para alguém, significar.
Vejo-me no espelho e minhas mãos têm o sangue de todos que, num piscar de olhos, quis mortos por já serem não-mais que fantasmas; mas bem, foi só um reflexo no espelho.
(...como você)
Fora do espelho, já é amanhã.
Outro amanhã para se olhar pela janela e pensar que se poderia, com um céu tão azul, estar em outro lugar.
Mas não era aqui que eu deveria querer estar? Não era com você?
(querendo ou não, estou aqui
-você está aqui, mas não comigo)
Amanhã você acorda e faz uma lista com todas as coisas que diz precisar fazer antes de me; e todas as vezes que passo por você no corredor, sinto como se estivesse assistindo minha vida acontecer na outra margem do rio, longe de mim - que não sei nadar.
(e todas as coisas são feitas enquanto você não me vê)
Ora, você - posso dizer - é como um parêntese em que se pode encaixar qualquer um que julgue significar o bastante. Quem pode saber?
Você - que não me vê - é que não.

outubro sem nome (espelhando você)

foi num outubro tarde primaveril
que olhei para o céu até entrar no azul
e voar até as nuvens de sonho
(restos de algo que um dia esqueci)
sonhando estar onde quis, desde sempre, estar.

e lá de cima, pude ver
que onde eu sempre quis estar é aqui, e que
quem sempre esteve nos meus sonhos foi você.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

hoje a esperança foi embora.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Left out

talvez eu tenha achado que pudesse ter algum direito a sonhar com terras longe demais. não sei por que me arroguei tal direito; pode ser que tenha me acostumado ao som de teclados espaciais e pensado que seria possível.

às 10:07 de todas as manhãs, eu ajeitava o anel enferrujado na janela; e todas as manhãs eu pensava que se o sol incidisse sobre o anel e eu desejasse de verdade, um portal seria aberto no céu e eu estaria livre, em qualquer outra terra longe dali.
imaginava como seriam as pessoas do outro lado, se falariam comigo. se eram tão sozinhas quanto eu.

não existe portal. não existe ninguém do outro lado.
o sol é fosco e metálico. i'm cold inside.

The dream went away
And you came
With your dark hair loose
Ruthless cold reality
Oh, how I hate your truth
Don't turn your back this time
Just look at my eyes
I won't break down
I'm going to fight * 



(*) Left Out - Riverside

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Poeira

Quando estive sentada observando as pessoas que me observavam, abateu-se sobre mim a dúvida
se eu pareço a eles todos algo alien de longe daqui, um caso arquivado indecifrável - por isso me olham?
um alien não pode ser caso arquivado porque é por demais interessável, e um caso arquivado não suscita olhares - eis-me como um alien sentada em frente às pessoas.
Como seria o céu de quem tem todo o tempo do mundo se fôssemos maiores que nossas fôrmas? E não agimos como se tivéssemos todo o tempo do mundo? E não bebemos como se pudéssemos esquecer que não é fácil ter que esperar o tempo de cada coisa, e o tempo em que nos odiamos e queremos estar longe dali de nós mesmos, e o tempo em que não sabemos o que fazer nem temos com quem falar - e se tivéssemos com quem falar, existe esse alguém que sabesempre o que fazer?
Pó é poeira quando você não está ali para significar. poeira que seca os olhos e não deixa as lágrimas afluírem;
e no fundo no fundo, admito, não é culpa do pó se os nãos que evitam algo dessignificante
apenas não conseguem achar algo para corroer aqui dentro, onde arquivei meu coração.
(é que você não está ali para significar)
Não é estranho que o significado do agora esteja nas letras de uma banda polonesa?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sobre a dor

Mesmo se alguém com opinião suficientemente influenciável e difundida,
um alguém que resolvesse lançar um compêndio sobre a dor,
qualquer um que sabe o que é dor - um qualquer que não busque a comoção através de relatos e sintomas aglomerados num compêndio, que não corra atrás do sofrimento dos lugares mais sofríveis, que não sente em frente aos macacos agonizantes de uma realidade distante a esperar pelo toque da empatia - qualquer um que tenha um buraco constante na alma saberia que não se pode falar sobre toda densidade e profundidade de uma dor.
- E as músicas tristes que as pessoas fizeram? E os filmes? - ela perguntou enquanto servia outro copo de vinho, e senti vontade de nunca ter iniciado o assunto; soube que ela não poderia entender - mesmo se quisesse, do fundo da alma, entender; ainda, se assim fosse, menos mal eu poderia me sentir, mas estava claro que ela faria perguntas gentis sobre qualquer assunto que eu sugerisse: dor, jacarés ou eleições.
Disse-lhe que não havia parado para pensar sobre isso, e ela começou a contar a história da filha de uma tia que precisou amputar a perna esquerda. Disse-lhe coisas boas de se ouvir antes que o silêncio recaísse sobre nós - sei que ela não suportaria, embora não fosse mais que apenas alguém com quem eu poderia repetir o roteiro de sempre. Deixei que se embebedasse o suficiente para fazer logo o que - sei - ela esperava desde o começo; bebi menos que o suficiente para fingir interesse mais que sexual.

losing all i fought for

Como ela poderia saber sobre a dor desse buraco ou que perder uma perna não é a mesma coisa que se ter um buraco impreenchível? Ainda esperava cruzar meu olhar com o de alguém que soubesse sobre a indescritibilidade das dores. Cada noite amanhecida ao lado de novos corpos com olhos rasos faz ruir um novo pedaço de mim, perdido para sempre no buraco.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

não se vive só de banana

às vezes enche o saco ser tão daydreamer. estive tentando resolver enigmas e encaixar peças - daí que pareço estar num picadeiro e todos aplaudem o macaco sonhador e suas gracinhas esquisitas, mas ninguém vê o domador.
- Desinteresse também é interesse. - disse o domador enquanto lia meus pensamentos.
o macaco acordou do sonho com o estalo do chicote. saiu do centro do picadeiro e grunhiu
- Foda-se você, domador. live and let die.

é mais ou menos isso que ando fazendo; logo ali, céu azul.

Surrounded

quando eu era adolescente e ainda morava em Lajeado foi que descobri a musicura.
quando o dia parecia pesar sob toda a luz do sol lá fora, eu ouvia Surrounded; a cortina esvoaçava um pouco mais, o vento passava fresco por entre as grades da janela e logo além eu via as folhas verdes da caneleira contra o céu azul.

ora, dor é evolução. passei por todas as coisas que doeram; por que negar - e não abraçar - my shadow self?



morning comes too early
and nighttime falls too late
and sometimes all i want to do is wait
the shadow i've been hiding in
has fled from me today

i know it's easier to walk away than look it in the eye
but i will raise a shelter to the sky
and here beneath this
star tonight i'll lie
she will slowly yield the light
as i awaken from the longest night

terça-feira, 7 de setembro de 2010

to the faraway lands


Otherland - Jeannete Woitzik

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

John Keen

Quando criança, ganhei de uma vizinha alguns livros de colorir. Eram diferentes: sem bonecos rechonchudos e traços toscos; eram livros que tinham fantasmas e criaturas de casas assombradas. impressos em papel frágil e amarelecido, não serviam para as cores: fantasmas são só preto e branco.
Vejo-os pelos corredores quando a noite já sugou todas as cores e os outros foram para onde tinham que ir.

As ilustrações de John Keen me levam para a casa escura de onde vim.